Poesias

 



 

 

Um Grito no Silencio


O que seria do riso sem alegria
Do pranto sem a dor
Da vida sem poesia
Do jardim sem uma flor?

O que seria da cor sem o contraste
Do palco sem o ator
De uma palestra sem debate
De um romance sem amor?

Sem cinzel, o que faria o escultor?
Sem flauta, o que faria o flautista?
Sem pincel, o que faria o pintor?
Sem mãos, o que faria o pianista?

Sem inspiração, não há poesia
Sem base, não se ergue um edifício
Sem idéias, não se faz uma teoria
Sem querer, tudo se torna difícil

Que seja bem vindo silencio
o silencio da paz e da pausa
o silencio da reflexão e da escuta
mas que seja banido – e banido para sempre!
O silencio do egoísmo e da omissão
O silencio do medo e da traição!

E além de banido, também seja execrado
O barulho da arrogância
Do discurso vazio e da intolerância
Pois é do silencio que surge um grito
Que só quer fazer o bem, jamais o mal
E pede que se desarmem os espíritos
Porque a guerra está lá fora...
Lá fora é o caos

Ângelo Meyer

Obs.: Poesia escrita especialmente para um Encontro Pedagógico Mensal - EPM, de 1998.


Lua Cheia

É por conta da poesia
Ter me atingido o peito
Que venho assim contrafeito
Cometer essa heresia
Só pra livrar a agonia
Que circula em minha veia
E o meu peito incendeia
Desde que vi o teu rosto
E comparei com bom gosto
Com uma noite de lua cheia

Lua cheia, encantada
É o teu rosto no espelho
Que junto aos lindos pêlos
Vira uma noite estrelada
Mas a lua, enciumada
Mesmo sendo obra divina
Sentiu-se pequenina
Miúda, dest’amainho
Diante deste biquinho
Que tu tens desde menina

É coisa bem curiosa
Ter me dado esse lampejo
E o fato de como vejo
Essa carinha mimosa
Com esse ar de manhosa
Feito gata siamesa
Lembra uma tailandesa
De um pintor bem famoso
Com esse olhar misterioso
De alegria e tristeza

Esse olho amendoado
É, realmente, um mistério
Pois quando o ar do rosto é sério
Ou mesmo preocupado
Ele é identificado
Em toda a plenitude
Mas, ao mudar a atitude
Rindo com desembaraço
Logo se transforma em traço
Que some na latitude

Cara de lua-garota
Corpo de gata-manhosa
Como tua pele é cheirosa
E linda a tua boca
Por isso deu-me essa louca
De rimar rima com rima
Menina, mulher-menina
Mulher-menina, mulher
Eu não sei quem você é
Mas só sei que me fascina
Angelo Meyer

(10/03/2001, às 8:00h)